Depois de Hermann Göring, a extrema direita volta a ter um presidente do Parlamento

Na Saxônia-Anhalt, após as eleições para o Parlamento estadual, um membro da AfD é eleito presidente do Parlamento estadual. Também com votos de pelo menos dois outros partidos. Uma quebra de tabu.

A extrema direita está crescendo em todo o mundo. Dois dias após o PL brasileiro ter obtido uma vitória eleitoral histórica nas eleições no Brasil, um representante de um partido de extrema direita é eleito presidente do parlamento em um estado do leste da Alemanha. Representantes desses dois partidos, AfD e PL, se reúnem regularmente.

A neta do ministro das Finanças de Hitler, Beatrix von Storch, importante política do AfD e deputada federal, em encontros com Jair e Eduardo Bolsonaro. O marido de von Storch é um alemão originário do Chile com boas conexões com círculos de extrema direita na América do Sul. …

No dia 6 de outubro de 2026 Brandmauer — literalmente, “muro corta-fogo”, na política alemã o termo significou que partidos democráticos não cooperam politicamente com a Alternativa para a Alemanha, a AfD, sofreu uma nova fissura.

Hermann Göring tornou-se presidente do Reichstag em 1932, depois que o NSDAP se tornou a maior bancada. Tobias Rausch (AfD), de 35 anos, foi eleito presidente do Parlamento estadual da Saxônia-Anhalt, em Magdeburgo. Pela primeira vez desde 1945, um político de um partido de extrema direita tornou-se presidente de um parlamento estadual alemão. Além disso, Tillschneider, líder intelectual da extrema direita, foi eleito vice-presidente.

Rausch recebeu 48 dos 82 votos válidos: 48 a favor, 29 contra e cinco abstenções. O detalhe mais importante está justamente nos números. A AfD possui 39 cadeiras no Parlamento. O partido BSW, liderado por Sahra Wagenknecht (uma cisão do partido Die Linke), possui outras cinco. O BSW havia anunciado que votaria em Rausch. Portanto, os dois partidos poderiam somar 44 votos. Porem, Rausch recebeu 48. Quatro parlamentares além da AfD e do BSW votaram a favor — mas, como a votação foi secreta, não se sabe quem são. É justamente essa incógnita que transforma uma eleição parlamentar aparentemente técnica em um acontecimento político nacional.

Tobias Rausch e Ulrich Siegmund, fonte: https://afdfraktion-lsa.de/tobias-rausch-erster-afd-landtagspraesident-deutschlands/

A Alemanha é uma federação. Cada um dos 16 estados — os Länder — possui seu próprio Parlamento, o Landtag, e seu próprio governo. O chefe do governo estadual é o Ministerpräsident, o equivalente aproximado a um governador brasileiro. O presidente do Parlamento ocupa outra função.

Ele dirige as sessões, representa o Parlamento, supervisiona o funcionamento da instituição e tem responsabilidades sobre sua administração, o Conselho de Anciãos e diversos aspectos do funcionamento parlamentar. Trata-se mais de uma função representativa; ele é chamado, por exemplo, para discursar em datas de importância nacional, como o fim da Segunda Guerra Mundial e a libertação dos campos de concentração nazistas, o que reveste um caráter particularmente trágico.

É, portanto, uma posição institucional importante, mas não significa que a AfD tenha assumido o governo da Saxônia-Anhalt. A AfD venceu a eleição estadual de setembro com quase 44%, mas ainda não conseguiu formar um governo. Faltam três votos para a maioria absoluta. Até o momento, nenhum partido se manifestou favoravelmente a uma aliança.

A AfD obteve 43,8% dos votos e 39 das 83 cadeiras. A CDU, ficou em segundo lugar, com 17,2% e 15 cadeiras (ela perdeu mais da metade dos votos em relação à última eleição). Depois vieram SPD, Verdes e Die Linke, com oito cadeiras cada, enquanto o BSW conquistou cinco.

O próximo grande desafio para a Brandmauer é a eleição do primeiro-ministro. Ulrich Siegmund pretende ser eleito pelo Parlamento em dezembro e já afirmou várias vezes que, nessa ocasião, contará com os votos necessários e também com uma maioria estável para governar. Isso pode ser verdade, mas também pode ser apenas um blefe. Infelizmente, a eleição para presidente do Parlamento estadual não traz muitas esperanças, pois, mesmo sem serem obrigados a isso, quatro deputados já votaram no candidato da AfD, apesar de terem afirmado anteriormente que não o fariam de forma alguma. Caso Siegmund se torne o primeiro-ministro da AfD, isso representaria uma virada histórica para a Alemanha, pois, em nível regional, o governo pode definir muitos rumos, especialmente nas áreas de educação, cultura e sociedade civil — por exemplo, cortando ou reduzindo verbas destinadas a ONGs e teatros.

Além disso, o clima político mudaria se um ministro-presidente de extrema direita, valendo-se da autoridade do cargo, abordasse temas como o passado alemão, o nazismo, o racismo, o antissemitismo, a migração etc.. Caso Siegmund não fosse eleito, o antigo ministro-presidente Schulze, da CDU, permaneceria formalmente no cargo até a realização de novas eleições. Do ponto de vista da teoria democrática, isso seria o melhor cenário.